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terça-feira, 12 de março de 2013

Um pouco de muito: Guilherme Costa, paratleta de tênis de mesa

Um pouco de muito! é um espaço no Blog para conversarmos um pouco com algumas pessoas que são muito! que já fizeram pra caramba, que têm demais da conta pra ensinar e pra compartilhar.

O formato que escolhemos para isso foi uma EnTWITTERvista (respostas curtas em poucos caracteres) e depois abusarmos um pouco mais do nosso convidado a partir das respostas dadas.

Com vocês, Guilherme Costa!
Antes de começar, conta pra gente qual o seu nome, sua idade e onde você mora?
Guilherme Marcião da Costa, 21 anos. Moro em Brasília /DF.

Em sua opinião, por que você acha que está sendo entrevistado?
Suponho que seja pelos meus resultados e por ser amigo íntimo do Gui (hahaha).

O que você mais gosta de fazer na vida? E o que você realmente faz?
Gosto de Jogar Tênis de Mesa. Graças a Deus faço o que amo e sou atleta paraolímpico de tênis de mesa.

Qual o fato mais marcante na sua vida? E por quê?
Como atleta, sem dúvida nenhuma foi o fato de ser campeão Brasileiro em 2011. Eu provei para mim mesmo onde eu poderia chegar se eu quisesse. Nosso potencial é limitado por nós mesmos. (nota do autor: e olha que o cara já desfilou numa abertura de ParaPanAmericano!)

Você é estudante? Ou já trabalha? Ou os dois? Conta um pouco sobre isso.
Sim estudo Direito e estou no 6º período. Sou atleta profissional e atualmente vivo disso. Gosto de aprender um pouco de tudo e com certeza o direito abriu muitas portas para mim.

Você é solteiro? Casado? Namorando? Por quê? E quem é a pessoa que está junto contigo, caso não seja solteiro?
Estou solteiro, por opção.

Qual ou quais esportes e atividades físicas você já praticou? Qual você pratica hoje em dia? E por quê?
Natação, rugby e tênis de mesa. Hoje sou atleta paraolímpico da seleção brasileira de tênis de mesa, pois amo este esporte.

Como e quando você se interessou pelo esporte, de modo geral?
O esporte me escolheu, pois foi observado meu talento na reabilitação no Hospital Sarah e lá recebi os primeiros incentivos para praticá-lo.

O que significa o esporte na sua vida?
Realização pessoal, busca da excelência, desafio, felicidade e parte da minha liberdade.

Você tem alguma meta esportiva para 2013?
Conseguir a vaga para participar do mundial em 2014

Se você recebesse 250 milhões de reais para investir em esporte, o que você faria?
Investiria na base, sem dúvida nenhuma.

Nesse fim de semana, nosso atleta conquistou a medalha de bronze na Copa Norte-Nordeste-Centro Oeste pela etapa de Brasília... Mas no mês passado, Guilherme Costa recebeu a notícia da convocação para novamente integrar a equipe que vai representar o Brasil no Parapanamericano de Tênis de Mesa, que acontece em Julho, na cidade de Piracicaba/SP e será a competição classificatória para o Mundial de 2014. E o sonho de conseguir a vaga está mais próxima...

O começo da carreira de paratleta de Guilherme Costa aconteceu em um Centro de Reabilitação. Ele nunca havia praticado o tênis de mesa antes da sua lesão e conhecia somente o ping-pong, tendo praticado somente como diversão e ele mesmo relata:  "era muuuuuuuuuito ruim".
Mas não demorou e ele já estava despontando no esporte... quer dizer, na primeira competição em que participou (Campeonato Brasileiro de 2007), após somente 2 semanas de treino, ele só "tomou pau" nas palavras dele... Mas com muito treino conseguiu melhoras no seu jogo e viu sua carreira deslanchar.

Guilherme hoje treina pela Academia Rizzone, já participou de 11 competições internacionais e conquistou seis medalhas nesses torneios. E isso porque ele começou a praticar a modalidade fazem somente cinco anos.

Mas muito mais que medalhas ou competições, para um adolescente que nunca tinha viajado para fora do Brasil e hoje já conheceu 8 países, o esporte tem sido fundamental em sua vida, contribuindo na sua condição física, social e cultural.
E Guilherme é o tipo de atleta que, apesar de nos contar que vive do esporte, deixa a vida seguir em outras áreas... Além de treinar e cuidar do seu físico, ainda mantém uma rotina intensa de estudos, palestras, ensaio da banda e aproveitar suas amizades.
E dá tempo de conciliar tanta coisa? Palestras, estudos, esporte? Ano passado ele ainda inventou de participar de um espetáculo montando por um grupo de cadeirantes de Brasília.

Guilherme nos contou também que nesse ano tem diminuído um pouco a rotina e buscado focar um pouco mais no esporte. Mas tem um prazer enorme quando é convidado para dar palestras. E parece que ele tem maior jeito mesmo. Ou qual seria o motivo dessas crianças estarem tão atentas?
Sobre as palestras, nosso comunicador manda essa: "faço simplesmente por amor. Sei que não sou melhor do que ninguém. Só tento passar para as pessoas as coisas que aprendi a custo de muita dor. Para que elas aprendam por outros caminhos a dar valor para quem está do meu lado, a ter paciência, disciplina, responsabilidade e principalmente respeito."





Agora que já estamos encerrando, será que o Guilherme Costa quer explicar pra gente o apelido dele: Nemo? Essa é contigo aqui nos comentários Gui...

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Um pouco de muito! Com Edênia Garcia, medalhista em 3 Jogos Paralímpicos!

Medalha de Prata nos 50 metros costas (S4) em Londres 2012
Um pouco de muito! é um espaço no Blog para conversarmos um pouco com algumas pessoas que são muito! que já fizeram pra caramba, que têm demais da conta pra ensinar e pra compartilhar.

O formato que escolhemos para isso foi uma EnTWITTERvista (respostas curtas em poucos caracteres) e depois abusarmos um pouco mais do nosso convidado a partir das respostas dadas.

Nota inicial do autor: depois de concluído e enviado o post para aprovação de Edênia Garcia, curte as palavras dela: "super pode e deve publicar a matéria. Tá humana e verdadeira. Foi a melhor descrição que já vi." Pronto! Está aqui agora... Aproveitem!

Com vocês, Edênia Garcia!

Em sua opinião, por que você acha que está sendo entrevistada?
Para divulgar o esporte Paralímpico e passar informações do mesmo.

O que você mais gosta de fazer na vida? E o que você realmente faz?
Gosto de nadar e realmente é o que mais tenho feito nos últimos 12 anos.

Qual o fato mais marcante na sua vida? E por quê?
Ganhar minha terceira medalha em Paralímpiadas. Porque foi a mais difícil.

Você é estudante? Ou já trabalha? Ou os dois? Conta um pouco sobre isso.
Hoje sou atleta profissional.

Você é solteiro? Casado? Namorando? Por quê? E quem é a pessoa que está junto contigo, caso não seja solteiro? O que ela representa na sua vida?
Em um relacionamento sério com meus treinos rsrs...

Qual ou quais esportes e atividades físicas você já praticou? Qual você pratica hoje em dia? E por quê?
Sempre fui nadadora e é o que sou na atualidade. Porque  a natação é o que me “MOVE”.

Como e quando você se interessou pelo esporte, de modo geral?
Quando descobri que teria uma qualidade de vida melhor.

O que significa o esporte na sua vida?
Significa  “VIDA” e “TRANSFORMAÇÃO”.

Você tem alguma meta esportiva para 2013?
A  principal é fazer bons treinos e subir no lugar mais alto do pódio.

Se você recebesse 140 milhões de reais para investir em esporte, o que você faria?
Faria esporte: geraria oportunidades para outros atletas com bons profissionais e equipamentos (estrutura).

Quando estava iniciando as conversas para conseguir a entrevista com Edênia Garcia ela comentou sobre a fase de treinos puxada em que ela estava. Eu, inocentemente, falei que esses retornos pós-férias são realmente difíceis. "E pior que não parei..." foi a resposta dela. Adorei a idéia de conversar com uma atleta que preferiu passar suas férias com seu "namorado" (veja na entrevista qual o relacionamento sério de Edênia Garcia! kkkk).

Determinação e vontade parecem ser marca registrada dessa galera paralímpica! Mas Edênia Garcia vai além e incorpora a natação como estilo de vida... Desde os 14 anos, quando na primeira competição de sua vida conquistou 7 medalhas de ouro e 1 de prata. Sendo convocada para o primeiro Campeonato Mundial no mesmo ano e tendo conquistado 5 medalhas de ouro! E alcançando o melhor tempo do ranking mundial no ano seguinte (50 mts costas)... Um destino já estava traçado.

Edênia Garcia seguiu nesse caminho com muitas outras vitórias... E apesar de tantas conquistas, ela mantém a humildade e senso de responsabilidade como fortes características. Ou seria por outro motivo que uma multi-campeã nacional, bicampeã em Jogos Parapanamericanos, tricampeã Mundial e três vezes medalhista paralímpica acharia que a razão de ser entrevistada seria promover o esporte paralímpico? Currículo ela tem sobrando... Atleta profissional, que consegue fazer de sua vida aquilo que mais gosta e ainda recebe pra isso!

Mas como será a vida de uma atleta profissional no Brasil, ainda mais no esporte paralímpico? Deixa ela contar um pouquinho pra gente: "Hoje o nosso esporte tem grande impacto no Brasil, com os últimos resultados obtidos em Londres e com isso uma maior exposição dos atletas paralímpicos. Estamos em total crescimento profissional. Hoje viver somente do esporte ainda é muito raro, mas é possível. Alguns atletas ainda dependem somente do bolsa atleta ou mesmo do governo local para se deslocar para competições. Em outros casos existem projetos que dão total estrutura, desde passagens, equipamentos e condições para bons treinamentos."

Felizmente o Comitê Paralímpico Brasileiro tem feito um excelente trabalho e a partir de algumas ações como o Projeto Ouro e o Clube Escolar Paralímpicos, diversos atletas têm tido a oportunidade de iniciar e principalmente preparar-se de forma ao menos digna e com excelentes estruturas. Além desses projetos, muito temos ouvido falar do Programa Bolsa Atleta, que hoje é o maior programa de patrocínio individual de atletas no mundo, totalmente financiando pelo Governo Federal.

Diante disso podemos assumir que a situação já é a ideal? Não, como Edênia mesma comentou, ainda é muito raro termos atletas vivendo somente do esporte.

E se atualmente as coisas não são nada fáceis, quando Edênia se interessou por praticar a natação, há mais de 12 anos, as dificuldades eram muito maiores: pegar 4 ônibus para chegar no treino, falta de lugar adaptado para trocar de roupa e tomar um banho depois da natação....

Alguém mais sofre com esses problemas ainda hoje, ou muita coisa já mudou?

Mas o que nos CO-MOVE é a paixão de Edênia pela natação. Tem sido mais de uma década dedicada a uma modalidade e ao esporte que certamente promoveu transformação e qualidade de vida a essa mulher que saiu do Crato (CE), conheceu e encantou o mundo.

E fez isso aqui que a gente acompanhou nos Jogos Paralímpicos de Londres (nossa atleta está na raia 3). De acordo com a própria Edênia, a medalha mais difícil de sua carreira.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Inclusão Reversa na Corrida de Reis

Aconteceu neste fim de semana a 43ª Corrida de Reis, em Brasília! O Evento contou com a participação de quase 12.000 corredores. Apesar da chuva que choveu (o pleonasmo vale pela quantidade de chuva), a linha de largada estava em festa, muitos participantes e muito público... mas muita água.

Mas como cheguei aqui?

Bem, duas semana antes, decidi solicitar minha inscrição na prova. Mas não queria correr,  e sim participar com minha handbike. Tudo bem, handbike não é específica para provas de corrida, deveria ser utilizada em provas de ParaCiclismo. Não custava tentar...

Na verdade as inscrições haviam se encerrado pois não tinham mais vagas. Ainda assim,  enviei uma correspondência eletrônica para a organização do evento com o seguinte pedido:

"Gostaria de participar de um evento tradicional de uma forma prazerosa, mostrando que a deficiência pode ser encarada de uma forma muito natural e que os instrumentos que os deficientes utilizam podem ser utilizados por qualquer um, com grande prazer e benefícios. A isso chamo de inclusão reversa."

Claro que expliquei que eu mesmo não era deficiente e que por esse motivo não iria concorrer à premiação (como se eu tivesse chance!). Apesar da demora na resposta, creio que eles devem ter refletido bastante sobre meu pedido, recebi uma afirmativa da organização faltando apenas 3 dias para a prova.

E lá fui eu buscar meu kit e preparar a handbike. Na entrega do kit começaram as situações engraçadas e inusitadas. O atendente que iria fazer minha inscrição demorou alguns minutos e buscou ajuda para saber se me inscrevia na categoria cadeirante, sendo que eu não sou cadeirante; ou na categoria regular mas para utilizar um implemento da categoria cadeirante. A questão era: quem deveria ser inscrito, a handbike ou eu?

Por fim, fomos inscritos eu e minha handbike na categoria cadeirante, como eu acreditava que deveria ser...

Confesso que no dia quase desisti diante de tanta água, pois estava receoso em pedalar no chão molhado. Mas pouco antes da prova a chuva cessou e foi o suficiente para que eu saísse de casa rumo ao Estádio Mané Garrincha, local da largada. Ledo engano... Estacionei o carro, desci a handbike e enquanto me dirigia à área de aquecimento, a chuva voltou como sempre nesses últimos dias em Brasília. Tudo bem!

Enquanto aquecia, encontrei a campeã da São Silvestre, Aline Rocha. Fiquei muito feliz quando ela confirmou sua participação na prova, pois fui em quem, ao saber que ela estaria em Brasília no dia da Corrida de Reis, dei toda orientação para ela tentar a inscrição. Enfim, iríamos correr juntos.
Acredito que na ansiedade pela corrida eu cheguei um pouco mais cedo. E somente depois de cerca de 20 a 30 minutos que foram chegando outros cadeirantes e atletas da categoria adaptada (nossa largada seria 10 minutos antes da largada geral).

Em meio a todos que chegavam, eu era o cara novo! O atleta desconhecido... Sinceramente estava um tanto quanto desconfortável, com receio inclusive de mexer a perna ou me levantar e as pessoas da categoria adaptada questionarem minha participação. Fundamentalmente, temia não ser aceito! Parece loucura, mas era uma preocupação real: não ser aceito por aqueles que sentem-se rejeitados em diversas situações. 

E assim, eu ficava era quietinho, até mesmo evitando as pessoas. Mas Aline, que ficou perto de mim esse tempo todo, e já era conhecida de muitos por participar dos Circuitos Caixa, rapidamente me apresentava como um "atleta genérico", quebrando qualquer clima que pudesse haver. E no meio dessa galera eu me diverti até o momento da largada.
Quando entramos na área de largada qual foi a minha surpresa ao me deparar com dois atletas do rugby em cadeira de rodas (BSB Quad Rugby), com suas cadeiras de rugby. Para quem não sabe, uma cadeira dessas pode pesar cerca de 15 a 20kg. E seus atletas são, na maioria, tetraplégicos! Coragem pouca hein? Completar 6km e 10km em cadeiras de rugby! Enfim, os caras mostraram que para jogar rubgy tem que ser mesmo casca grossa.

O tempo passava e a concentração e expectativa aumentavam. Enfim, todos perfilados...
E foi dada a largada! Sabe que foi uma decepção. Não sei por qual motivo, a largada da categoria adaptada não é feita com um sinal sonoro como da categoria principal. Um ilustre senhor fez um sinal com o braço... e largamos! Simples assim.

Rapidamente os homens cadeirantes distanciaram-se. Os atletas de rugby ficaram presos na linha de largada, que tinha um desnível. Eu fui acelerando pouco a pouco e logo alcancei as mulheres e alguns homens, mas o pelotão de frente já estava "inalcançável", ou seja, longe mesmo!

O percurso da Corrida de Reis é mais ou menos assim: 600 metros de subida, 100 metros plano, descida, descida, descida, descida... até quase os 6km de prova! E então, subida, até o final.

Creio que a organização da prova nunca fez esse percurso sobre rodas. Na descida, o atleta poderia até deixar na "banguela". Fiz força e alcancei a velocidade de quase 60km/h em alguns trechos. Na subida... bem, na subida não existia a chance de parar de pedalar por um segundo para descansar os braços. Claro que eu não sou altamente treinado e capacitado para fazer força com os braços, mas acredito que um percurso com trechos mais planos ou alternando entre subidas e descidas seria mais desafiador de modo geral. Enfim, minha leiga opinião!

Altamente positivo no percurso dessa prova, assim como de várias outras em Brasília, são os monumentos e a beleza da cidade.
Durante quase toda a prova, estive sozinho. Deixei para trás alguns atletas cadeirantes logo no início. E depois não via mais ninguém. Os outros estavam muito na frente. No entanto, já na subida, e próximo ao Teatro Nacional, comecei a me aproximar de mais um cadeirante. Eu todo empolgado com meu desempenho acelerei e ultrapassei... Mas ele tinha um pneu furado e quase não rodava mais. Só por isso passei na frente dele! Tanto que ainda deu tempo pra tirar uma fotinha!
Logo após a subida da Rodoviária fui ultrapassado pelos líderes da categoria Elite. Quase não deu tempo para tirar a foto. Os irmãos gêmeos voavam para ganhar a prova!
E eu rodava, com muito, mas muito esforço, até enfim alcançar a linha de chegada.

Aqui cabe um comentário que não havia feito ainda, apesar de já ter percebido desde o começo uma grande diferença do olhar dos outros.

Tenho um contato próximo com a galera cadeirante e deficiente desde o ano de 2003. Uma queixa constante de mães, crianças, jovens e adultos, é quanto ao olhar da sociedade para com eles. Diziam que percebiam um olhar de pena que os incomodava!

Senti isso desde o começo. Não considero que seja um absurdo e até mesmo compreendo esses olhares. Mas creio que são olhares causados pelo desconhecimento. Mas que realmente também me incomodavam...

Ao aproximar-me da linha de chegada, um grande público esperava os atletas. Claro que ninguém sequer imaginava que eu não seria deficiente. E minha passagem causava uma grande comoção nas pessoas. Inicialmente aquela situação mexeu comigo, como se eu fosse uma fraude! Mas diante da força que eu fazia e da tremenda dificuldade em completar a prova, tomei aqueles gritos de incentivo e aplausos de reconhecimento para mim, não pela "pena" de ser um provável deficiente, mas pela certeza de estar concluindo um desafio proposto. E pronto! Como deve ser com qualquer um e com todos de nós.
Ao final, completei os 10km em 33 minutos. Fiquei em 4º colocado na categoria cadeirante!

E apesar de já ter concluído outras provas de 10km, 21km correndo, confesso que fui mais desafiado em minha condição física ao pedalar com as mãos. Não foi fácil, ao mesmo tempo que foi muito legal competir com uma handbike. 

E valeu a medalha...
Ah, a Aline Rocha, faturou mais um título e já afirmou que ano que vem volta para defender sua condição de campeã da Corrida de Reis.

Quem sabe eu volto também... Alguém mais anima?

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

E agora, Danielle Nobile?



E agora? é uma nova seção em nosso blog.

Em nosso cotidiano passamos por diversas situações, com aspectos positivos ou negativos, maiores ou menores repercussões. Certo é que muitas delas podem mudar radicalmente   nossas vidas. E que, depois disso, sempre tem um: E agora?

Com vocês, Danielle Nobile...
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20 de outubro de 2012. Acordamos cedo. Por volta de quatro ou cinco horas da manhã? Não me lembro... Eu era toda adrenalina! Isso me lembro! Claro, eu ia largar!! Nem acredito que me escolheram pra largar! A prova? Revezamento Bertioga-Maresias! 75km que dividimos em três: eu, Paty e Carol.

Lá fomos nós. Nas fotos antes da largada, eu era toda sorrisos! Como sempre, fui! Adrenalina a mil! E eu tinha que dar o meu melhor.

E todas nós demos!

Dor, fome, sede, alegria, suor, companheirismo, postos de troca, isotônico, risadas, fotos, música, muita coisa misturada...

Pegamos 6º lugar no trio feminino! Era minha 50ª medalha (fora as provas que fiz na pipoca).
No dia seguinte já estava com a cabeça na próxima prova: Four Asics Brasília! Seria minha 6ª meia-maratona e o objetivo era fazer abaixo de duas horas. E eu ia conseguir! No treino eu tinha feito 20km em 1:49 e ainda pedalei 30km depois. Tudo indicava que ia dar certo!!!

Mal sabia eu que Bertioga-Maresias seria minha última medalha de corrida por um bom tempo...


22 de outubro de 2012. Nesse dia, minha vida mudou! Capotei o carro 8 vezes e, apesar de nenhum corte no corpo, quebrei uma vértebra e “fui parar” na cadeira de rodas! (pra saber detalhes dessa história, acesse o blog do Jairo Marques, que lá eu já contei tudo!)

Sabe, fiquei realmente surpresa comigo mesma. Não me desesperei por nenhum minuto. Ok, desesperei quando o bombeiro me perguntou se eu conseguia sair do carro sozinha e eu não conseguia! E comecei a gritar: “Moço, eu sou atleta!” E chorava: “eu nunca mais vou correr? É isso?”

Depois, não sei, não me desesperei mais! Minha sensibilidade voltou ainda na sala de Emergência. Claro, bem pouquinha, bem discreta... E os dias foram passando: Sete dias na UTI, cirurgia pra colocar uma placa de titânio no lugar da minha vértebra C7, mais um dia de UTI e quatorze dias no quarto do hospital.

Mas em minha cabeça só havia um pensamento: voltar a correr! 
Todos que iam me visitar diziam que eu não desistisse. “Desistir? Eu não vou desistir enquanto eu não voltar a correr!” Essa era a resposta de sempre.

E dentro de mim eu pensava: “Não vou conseguir viver sem endorfina, meu Deus! O que eu vou fazer?” Vamos ver o que sei fazer:

Correr? Preciso de pernas.
Pedalar? Preciso de pernas (ao menos eu pensava assim. Já já falarei do pedal de novo!)
Nadar? Sim!!!!!!!! Essa era a solução! Comecei a torrar a paciência do médico para me liberar para natação.

Enquanto isso, vim pra casa dos meus pais, comecei a pesquisar e um mundo novo se abriu pra mim. Vários cadeirantes apareceram em minha vida (Thanks God!) e começaram a me tirar até dúvidas bobas, sobre rotina, sobre a  cadeira de rodas e sobre esporte!!!! Vários deles praticam musculação, canoagem e natação... Então eu me animei!

Mas e agora? Bem...

O plano A é ganhar mais medalhas de corrida!

O plano B é ter outro porta-medalhas, de “paranatação”! Pois finalmente meu médico me liberou para entrar na piscina! Dois meses depois da lesão, meu pai entrou comigo e eu arrisquei as minhas primeiras braçadas descoordenadas (segurando nos espaguetes, claro, senão eu ainda afundo!) .
Mas continuei a pesquisar! Há coisas que eu não sabia como funcionavam e existem também um milhão de esportes adaptados. Tem ainda uma tal de classificação funcional (dependendo da lesão você se enquadra nessa ou naquela categoria) e fui procurar qual seria minha classificação na natação. Nesse momento, entrei no site do Comitê Paralímpico Brasileiro.

Também “aluguei” um amigo cadeirante nadador para descobrir um monte de coisas, que me mandou vídeos de competições e então procurei uma escola de natação! Já dei até algumas braçadas, sem o espaguetti, no nado costas.
Mas, não parei por aí! Eu já tinha visto basquete pra cadeirantes, mas não sou muito boa de mira, nem de esportes coletivos (sempre fui baixa e com “excesso” de coordenação motora). Eu já fiz aulas de boxe e boxe chinês e descobri que há boxe pra cadeirante! Estou pensando nisso!
E tem também as handbikes. Descobri que posso pedalar com as mãos e estou louca pra tentar (mesmo ainda estando com os braços fracos, afinal, sou mulherzinha. Eu praticamente só treinava perna!).
Conforme os dias passam, eu pesquiso, faço novos amigos e descubro mais e mais esportes adaptados! Há o vôlei sentado, esgrima, rugby, tênis de mesa... Há muitas opções! Basta escolher uma (ou duas ou mais), parar de preguiça, sair da cama ou sofá, sentar na cadeira de rodas e “rodar” atrás de algo que você goste! Não há porque pensar que, como cadeirante, você precisa ser sedentário!










E há mais um “porém” na minha história esportista e atlética (quem vê, pensa!). Eu havia prometido a alguns amigos que correria a São Silvestre em 2012, mas não pude! Agora esses mesmos amigos me fizeram prometer que eu iria correr com eles a São Silvestre 2013.

Prometi e vou cumprir! A pé ou de cadeira, eu vou e completarei a prova! Afinal, promessa é dívida! (o autor do blog abre parêntes: quem sabe a Dani não desbanca em 2013 a atual campeã Aline Rocha)

Um dia uma pessoa próxima me fez chorar muito, dizendo: “Mesmo que você volte a andar, você não vai conseguir correr de novo. Seu pescoço não vai agüentar o impacto.” Chorei demais mesmo. Mas depois, a pessoa disse: “Mas você pode trabalhar em organização de provas”. Depois que o choque passou, eu pensei que essa pode ser mais uma possibilidade para continuar “ligada” ao esporte!

O esporte (a corrida, no caso) me ajudou muito em 5 anos. Passei por momentos difíceis e superei no treino, me alegrei e comemorei no treino, melhorei meu tempo, conquistei medalhas e pódios e fiz muitos, muitos amigos (que estão sendo essenciais em vários aspectos da minha recuperação).

Tenho certeza que o esporte me ajudou a não me desesperar com minha nova vida, minha nova realidade.  Desde o começo, pensar no esporte foi um alento e agora tem sido uma perspectiva de uma vida ativa e saudável, não importa se como andante ou cadeirante. Na realidade, percebi que há um mundo, vasto e novo, a ser explorado! E nesse mundo eu posso ter mais chances e até ser mais feliz!

O texto foi escrito e cedido pela corredora, atleta e muito ser-humano, Danielle Nobile.