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domingo, 17 de março de 2013

Quando começar? E quando parar?

Não tenho a menor pretensão em tratar de forma científica e minuciosa a respeito da fisiologia e aspectos biomecânicos ou maturacionais da prática esportiva para crianças ou no envelhecimento. Imagino que mais do que artigos científicos ou citação de fontes respeitadas, alguns exemplos e reflexões bastam para iniciarmos um diálogo.

O ano está começando e muitos pais estão à procura de "escolinhas" de futebol, natação , ballet ou ginástica artística para seus filhos. E observamos que esse fenômeno acontece mesmo para crianças muito pequenas, ainda com seus 3 a 4 anos. Existe algum erro nisso?

De forma alguma! Na verdade, nada melhor para um pequeno que participar de aulas estruturadas e coletivas em um tatame com desafios motores e aventuras imaginárias.

Ou um bebê interagindo com seu pai, brinquedos e outros bebês em uma piscina quentinha...


Contudo, temos visto muito mais que isso. Pais que depositam a esperança de um futuro melhor e milionário nas mãos, nos pés (no corpo?!?) e no talento esportivo de seus filhos. E disso surgem cobranças excessivas e sonhos distantes da realidade. Tudo bem, sonho não precisa ser nem perto da realidade, já que é sonho mesmo! E se assim for tratado como...

Mas a criação de "meninos prodígios", especializados em gestos motores específicos e focados em tornarem-se astros esportivos de sucesso internacional em uma modalidade esportiva pode prejudicar de maneira definitiva o desenvolvimento adequado de uma criança, seja no seu aspecto motor como também em questões sócio-afetivas.

Muito recentemente surgiu na mídia um garoto de 11 anos que fora aprovado em testes no Barcelona. A proposta era mudar-se para a Catalunha e viver longe de sua família para jogar futebol.

O sonho de Cassiano quase tornou-se realidade. Mas seu pai, Sr. Tiquinho, foi contrário a essa proposta:

"Eu penso primeiro como pai, minha ideia não é ficar exibindo meu filho por ele jogar no Barcelona, ser jogador. Quero acompanhar o crescimento dele. Se ele não se tornar um jogador, ele pode ser um médico ou advogado" (leia a notícia).

Essas palavras, vindas de um pai que acabara de voltar da Espanha e ter seu filho comparado ao Messi! Difícil hoje em dia não?

Alguns meses atrás tive acesso a um vídeo de uma criança com 6 anos de idade, que participava de forma demonstrativa de Torneios de Fisioculturismo, tendo sido sempre muito incentivado por sua mãe. Certo ou errado?
Acho que a pergunta feita no título poderia ser diferente. Quando começar e quando parar o quê? E porque? Isso sim faz mais sentido. Pois dependendo do que almejamos para nós ou para nossos pequenos ou idosos podemos direcionar a resposta de uma forma mais adequada e segura.

Em uma viagem na China, presenciei um fenômeno impressionante. Vejam o vídeo:
Acredito que esse jovem atleta não deve ter menos de 70 anos. E o local nem era um Centro de Treinamento ou qualquer coisa do gênero. Na verdade essa cena foi vista em um parque, onde vários outros idosos faziam peripécias bem parecidas.

Ficou muito famoso também um vídeo recente de uma senhora de 86 anos praticando ginástica artística. Ela relata que o seu sonho é participar da festa de abertura dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro em 2016.
Na tentativa de responder às novas perguntas que fiz, muitos poderiam afirmar com veemência que esses tipos de atividades não caberiam a homens e mulheres dessa idade. Do mesmo modo que uma criança fazendo bodybuilding também não parece ser correto.

Certamente esse idoso chinês e a senhora da paralela tiveram um histórico físico-desportivo que permite a execução e a prática desse tipo de atividade até hoje sem prejuízos à sua saúde, inclusive com vários benefícios e talvez o maior deles relacionado com o bem-estar e o prazer! Porque motivo deveriam parar se a prática lhes faz bem ao corpo e à mente e ainda proporcionam a eles maior qualidade de vida e uma grande satisfação pessoal?
Imagino que não existe uma idade para interromper a prática de esportes, nem mesmo para aprender uma nova modalidade. No entanto, devem ser respeitados alguns aspectos muito importantes relacionados ao desenvolvimento do ser humano.

Existem atividades mais adequadas para cada faixa etária, principalmente quando falamos de crianças e de desenvolvimento infantil. Não adianta insistir com um bebê que ele não vai aprender a jogar tênis de mesa ou realizar exercícios ginásticos na argola. Nesse sentido é que devem ser respeitadas as etapas motoras e emocionais da criança, de acordo com o nível maturacional do sujeito.

A preocupação dos pais é real e justa, mas muitas vezes percebemos que os pais, de forma até mesmo inocente, buscam comportamentos motores em suas crianças para os quais ela ainda não está preparada. Observamos em escolinhas e campeonatos infantis uma cobrança exagerada da família numa especialização precoce, tanto na aprendizagem de um gesto motor perfeito, como na obtenção de vitórias a qualquer custo, sendo que os próprios pequenos ainda não entendem aspectos importantes do jogo e da competição.

Na verdade não existe uma idade determinada para ingressar na prática de atividades motoras, nem existe também um momento certo para interromper essa prática. Mas devemos estar conscientes e atentos para que os bebês participem de atividades específicas de bebês, crianças brinquem com gestos motores e na sua capacidade de aprendizagem e participação, assim como jovens e adultos sejam incentivados naquilo que lhes dá prazer e respeite suas condições físicas.

Procure sempre a orientação com um professor de educação física. Converse com os professores do seu filho e busque entender o que realmente é o melhor na etapa do desenvolvimento em que ele se encontra.

Boas práticas... E se você tiver um vídeo ou um exemplo interessante a respeito do que conversamos aqui, não deixe de nos enviar nos comentários abaixo.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Seu MACACO do bARALHO!

México, 1968. O americano Tommie Smith bate o recorde mundial na prova dos 200 metros rasos, seguido em 3º lugar pela seu compatriota John Carlos. Ambos, negros de nascença (como se houvesse outra forma...).

Itália, 2013. O time Pro Patrio, da 4ª divisão do campeonato italiano recebe em sua cidade o poderoso Milan AC para um jogo amistoso. Entre os jogadores do Milan estava o alemão Boateng, negro de berço (como se houvesse outra forma...).

Brasil, 2010. O Palmeiras vence o Atlético-PR pelo placar magro de 1 a 0 em partida válida pela Copa do Brasil, em jogo marcado por embrólio envolvendo o jogador Manoel, do time rubro-negro e negro de nascença (precisa falar de novo?).

Brasil, 2011. Um dos grandes jogos da semi-final de voleibol masculino pela SuperLiga acontece em Minas Gerais entre as equipes Cruzeiro e Volei Futuro. Um jogador que nunca foi negro foi destaque na partida e no noticiário...

No pódio, durante o hino nacional americano, Tommie Smith e John Carlos ergueram o braço com o punho cerrado e uma luva negra na mão. Esse gesto era a saudação "Raised Fist" do Partido Político Pantera Negra que lutava, muitas vezes de forma violenta, a favor dos negros americanos buscando igualdade de condições e a compensação por séculos de exploração.

Na minha opinião, essa pode ser considerado até hoje como uma das grandes expressões esportivas contra o racismo. Atitude que levou à expulsão dos dois atletas daqueles Jogos Olímpicos e ao banimento do esporte.

Revoltante não? A própria organização dos Jogos reprimirem uma manifestação contra o racismo. Claro que há que se considerar que o gesto realizado tinha relação direta com questões político-partidárias, das quais o Movimento Olímpico até hoje busca distanciar-se...

Mas infelizmente esse tema ainda não foi superado. E cada dia nos vemos pasmos diante de notícias constragedoras a respeito do racismo e preconceito.

Um fato chocou o mundo logo no início do ano em jogo amistoso de futebol a equipe do Milan e o desconhecido Pro Patria (da 4ª divisão do Campeonato Italiano). Os torcedores propatrianos cantavam hinos de ofensa racial a Boateng durante boa parte do jogo até que o atleta do Milan irritou-se e interrompeu a partida. Nesse vídeo vemos que toda a equipe do Milan manifestou seu apoio ao jogador e...
O clube Pro Patria recebeu por essa agressão de seus torcedores a severa pena de jogar uma partida do Campeonato Italiano com portões fechados. Talvez seja justamente esse um dos motivos de grande ocorrência desses fatos no país da Esquadra Azurra!

Em abril/11 um outro fato igual mas diferente aconteceu no nosso Brasil. Durante um jogo de voleibol pela SuperLiga, a torcida do Cruzeiro hositlizou o jogador Michael, que já havia se pronunciado quanto à sua homossexualiadade, com o intuito de provocá-lo e tirar sua concentração da partida.
A punição dada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva foi uma multa de R$ 50 mil a ser paga pelo time do Cruzeiro. Essa decisão inédita de condenação de um clube por ato homofóbico talvez tenha prejudicado a equipe do Cruzeiro em valor semelhante ao que deixou de ganhar a equipe Pro Patria na Itália, que não teve renda em uma partida do Campeonato. Muitos consideraram a decisão acertada, mas branda em seu rigor.

Contudo, muito melhor que a decisão do STJD, foi a solidariedade dos atletas que entraram no jogo seguinte vestindo de forma simpática uma camisa rosa, ao mesmo tempo em que sua torcida erguia um bandeirão e agitava balões temáticos.
Certo mesmo é que não podemos tolerar ações semelhantes em qualquer esfera do esporte... da vida! E um bom exemplo de não tolerância aconteceu no caso do atleta Danilo, ex-Palmeiras, que em jogo da Copa do Brasil-2010 irrompeu em fúria e ofendeu o jogador Manoel (do Atlético-PR) alcunhando-o de "Macaco do Baralho", não necessariamente baralho sendo o jogo de cartas...

Na época da agressão, o STJD condenou o jogador a 11 jogos de suspensão e um plus de R$ 6.000,00 em cestas básicas. Essa semana, o Tribunal de Justiça de SP também condenou o atleta, atualmente no time da Udinese na Itália, a pagar R$ 366.000,00 a entidade social, por crime de injúria racial.

Mas será que é tão difícil saber jogar e saber torcer? Será que um dia iremos aprender formas pacíficas de convivência no esporte? E que não sejam tão somente nas campanhas publicitárias, faixas, camisetas e abraços...
A mim me parece descabido qualquer ato de agressão verbal a um atleta (ser humano!) seja em campo ou na arquibancada referente a sua cor, credo, raça ou sei lá o quê!!! E bem acredito que qualquer dos torcedores que gritaram "bicha" para o Michael, ou o próprio Danilo afirmariam em concordância comigo a esse respeito...

Então que estado é esse que o ser humano(?) assume no esporte? O que acontece com a gente quando joga ou torce?

Lembro certa vez de assistir em quadra a um jogo de basquete com um grande amigo, Rodrigo Galego. E de forma característica, no momento dos arremessos de lance livre da equipe adversária, a torcida do time de Brasília pronunciava-se com vaias, xingamentos e barulho. Esse amigo virou e disse que não suportava as pessoas atuando daquela maneira. E completou: "eu quero que eles acertem todas e tenham o melhor desempenho possível. E que mesmo assim o time de Brasília seja superior." Confesso que nunca fui de vaiar times ou jogadores, apesar de já ter feito muito barulho para que o erro do adversário acontecesse, principalmente em jogos do meu time Campeão Brasileiro... Mas aquela fala me deixou pensativo.

Seria mesmo agir de forma errada torcer muito para um jogador errar um penalti, não acertar uma cesta, falhar na saída do bloco de partida ou numa virada na natação? Não creio que seja assim com esse rigor todo. Mas o extremo é bom para nos aproximarmos de uma ponderação e principalmente de uma reflexão.

E reflexão me traz à mente a imagem do espelho!
Um espelho que cada atleta, professor, aluno, técnico, árbitro, juiz, torcedor deve encarar e por fim (ou por início ou por meio) assumir sua condição na vida... no esporte!

"Seu preconceituoso do baralho!!!"